A multiplicação do pessimismo
23 Abril 2009, por João Correia da Silva
“Do que você precisa, acima de tudo, é de se não lembrar do que eu lhe disse; nunca pense por mim, pense sempre por você; fique certo de que mais valem todos os erros se forem cometidos segundo o que pensou e decidiu do que todos os acertos, se eles forem meus, não seus. Se o criador o tivesse querido juntar a mim não teríamos talvez dois corpos ou duas cabeças também distintas. Os meus conselhos devem servir para que você se lhes oponha. É possível que depois da oposição venha a pensar o mesmo que eu; mas nessa altura já o pensamento lhe pertence. São meus discípulos, se alguns tenho, os que estão contra mim; porque esses guardaram no fundo da alma a força que verdadeiramente me anima e que mais desejaria transmitir-lhes: a de se não conformarem.”
- Agostinho da Silva –
A Grande Depressão tornou evidente que, numa economia de mercado, o ritmo de actividade económica pode diminuir de forma drástica e inesperada. Nos E.U.A., entre 1929 e 1933, o Produto diminuiu 30%, tendo a taxa de desemprego atingido os 25%. O drama humano associado inspirou as duas obras-primas “As Vinhas da Ira”, romance de John Steinbeck e sua adaptação ao cinema por John Ford.
Perante tal crise, a resposta intelectual não se fez esperar. Em 1936, John Maynard Keynes publica a sua obra fundadora da Macroeconomia, validada na prática pelo New Deal (plano de recuperação comandado por Franklin D. Roosevelt – um dos grandes Presidentes dos E.U.A.).
Após setenta anos de desenvolvimentos, a Macroeconomia parecia ter solucionado um dos seus problemas centrais. Em 2003, no seu discurso como Presidente da American Economic Association, o Prémio Nobel Robert Lucas afirmou que o problema da prevenção da depressão tinha sido resolvido!
Entretanto, uma série de dogmas levou a que alguns princípios básicos tenham sido ignorados nas últimas décadas, e substituídos por mitos convenientes.1
Um desses princípios básicos é a volatilidade das expectativas.
“The best thing about the future is that it only comes one day at a time.”
- Abraham Lincoln –
Para ilustrar o poder das expectativas, vou recorrer a uma economia global faz-de-conta, e a um indivíduo representativo (o Zé Carlos).
O Zé Carlos recebe um salário de 1000 euros por mês, espera beneficiar de um aumento anual de 2% nos próximos 20 anos (estimando, portanto, atingir um salário de 1486 euros no final da sua carreira), e espera receber uma reforma, de valor igual ao seu salário médio, nos 20 anos seguintes.2 Se assim for, receberá, até ao final da sua vida, 583 mil euros.3 Para manter um nível de vida estável, deverá repartir essa riqueza pelos 40 anos de vida que espera ter pela frente, gastando, portanto, 1215 euros por mês.
Perante sinais de uma crise económica profunda, o Zé Carlos tornou-se mais pessimista relativamente à evolução futura do seu rendimento, passando a esperar um aumento anual de 1% (que lhe permitiria atingir um salário mensal de 1220 euros no final da sua carreira). Em resultado deste ajustamento de expectativas, o rendimento total esperado e a despesa mensal sustentável diminuíram 9,4% (para 528 mil euros e 1101 euros, respectivamente).
Assumindo que, nesta economia faz-de-conta, o Consumo representa cerca de 60% do Produto (sendo a Despesa Pública igual a 20% do Produto, e o Investimento igual aos restantes 20%), o efeito directo desta diminuição do nível de consumo seria uma diminuição do Produto de 5,6%.
Esta diminuição dos níveis de produção faz com que as empresas decidam deixar de lado algumas oportunidades de investimento. Suponhamos que o Investimento diminui 2 pontos percentuais por cada ponto percentual de diminuição do Produto – neste caso, 11,3%. O Produto diminuiria, então, 7,9%.4
Mas é preciso ter ainda em consideração o efeito multiplicador – elemento central da teoria keynesiana. Como a diminuição da procura leva as empresas a diminuir o volume de produção (e, tendencialmente, do emprego) em 7,9%, o Zé Carlos passa a receber apenas 921 euros por mês.5 Se mantiver a expectativa de atingir um salário de 1220 euros no final da sua carreira, gastará 1056 euros por mês (uma diminuição de 13,1% relativamente à situação inicial). Com uma diminuição de 15,8% do Investimento, o Produto reduz-se em 11,0%. Então, afinal, as empresas diminuirão o nível de produção (e o emprego) em 11,0%, e o Zé Carlos receberá 890 euros e gastará apenas 1038 euros por mês. Logo, o Consumo diminuirá 14,5%, o Investimento 22,0%, e o Produto 13,1%. Mas isso significa que o Zé Carlos receberá apenas 869 euros mensais…
Esta causalidade cumulativa é a essência do processo multiplicador. A diminuição da procura (por bens de consumo e investimento) provoca uma diminuição da produção e do rendimento, que, por sua vez, provoca novas diminuições da procura, que provoca novas diminuições da produção e do rendimento, que provoca novas diminuições…
Em resultado deste processo cumulativo de contracção económica (que, felizmente, converge – caso contrário deixaria de haver qualquer actividade económica!), o Zé Carlos acabará por receber apenas 821 euros por mês, e gastará 998 euros por mês.6 Concluímos finalmente que o Consumo diminui 17,9%, o Investimento diminui 35,8%, e o Produto diminui igualmente 17,9%.
Se tiver suportado todos estes cálculos, espero que tenha compreendido o processo multiplicador, que esteja convencido do poder das expectativas, e que não lhe tenha ocorrido este poema de Caeiro.
“Falas de civilização…
Falas de civilização, e de não dever ser,
Ou de não dever ser assim.
Dizes que todos sofrem, ou a maioria de todos,
Com as coisas humanas postas desta maneira,
Dizes que se fossem diferentes, sofreriam menos.
Dizes que se fossem como tu queres, seriam melhor.
Escuto sem te ouvir.
Para que te quereria eu ouvir?
Ouvindo-te nada ficaria sabendo.
Se as coisas fossem diferentes, seriam diferentes: eis tudo.
Se as coisas fossem como tu queres, seriam só como tu queres.
Ai de ti e de todos que levam a vida
A querer inventar a máquina de fazer felicidade!”
- Alberto Caeiro –
Notas:
1. Um dos quais é o mito de que beneficiamos hoje de uma compreensão profunda do funcionamento das economias. Algumas teorias resultantes justificaram, por exemplo, a desregulação (desastrosa) dos mercados financeiros, e a política monetária europeia de inflação quase nula (que conduziu à actual “armadilha da liquidez”).
2. Para simplificar, consideremos valores actualizados para o presente. Os valores recebidos no futuro crescem, relativamente aos valores actualizados, à taxa de juro em vigor na economia.
3. Este valor calcula-se da seguinte forma: 12[meses]*1000[euros/mês]*(1,0220-1)/(1,02-1)[soma dos termos da progressão geométrica]*2[durante a reforma o Zé Carlos recebe outro tanto] = 583 mil euros.
4. Vamos assumir que, aconteça o que acontecer, a Despesa Pública se mantém inalterada. Assim, a diminuição percentual do Produto relativamente à situação inicial pode calcular-se como: ΔY/Y = 0,6*ΔC/C + 0,2ΔI/I = 0,6*0,056 + 0,2*0,113 = 0,079.
5. Mantendo-se o nível salarial, mas diminuindo o emprego em 7,9%, as empresas vão pagar, no total, menos 7,9% de salários. É por isso que assumimos que o Zé Carlos (que é o indivíduo médio) perde 7,9% do seu salário, passando a receber 921 euros. Também assumimos que o seu salário vai aumentar a uma taxa constante durante 20 anos até atingir 1220 euros. Essa taxa constante pode calcular-se como g = (1220/921)1/20 = 1,4%. Desta evolução resulta um rendimento total de 507 mil euros, e uma despesa mensal sustentável de 1056 euros.
6. Sendo o salário inicial igual a 821 euros, e tendo nós fixado a sua expectativa relativamente ao salário final no valor de 1220 euros, verificamos que o aumento anual esperado terá de ser igual a 2% (coincidindo, neste caso, com a expectativa inicial, anterior à crise).



Excelente texto de divulgação da Ciência Económica em geral – e da Macroeconomia em particular – a leigos na matéria.
— Celso Nunes · 24 Abril 2009, 09:55 · #
O artigo/mensagem é de esperança! Que não será fugaz quando acompanhada de esforço, querer e acreditar.
— Mario Miraldo · 24 Abril 2009, 17:14 · #
Muito interessante, pertinente e esclarecedor. Parece-me, no entanto, que este sistema baseia-se obrigatoriamente em constantes e não considera inúmeros imponderáveis, como seja, por exemplo, o livre arbítrio de agentes económicos e financeiros influentes que tomam as suas decisões estratégicas, ainda que por vezes contrárias ao que todo o analista consciente e de bom senso prevê e aconselha e, muitas vezes, com resultados surpreendentemente positivos na macro-economia. Não esquecer ainda a influência que têm as instituições financeiras na diminuição do consumo e investimento privado. Obrigado pelo artigo e por nos manter acordados e a ponderar.
— João Gonzalez · 27 Abril 2009, 15:24 · #
“Perante sinais de uma crise económica profunda” E esta crise veio de onde?
Foi criada pelo espirito santo?
Ou terá sido resultado de excessos, como viver acima das possibilidades acumulando excesso de dívida?
Não será em última análise, essa a causa desta crise?
— CAGGP · 14 Maio 2009, 13:47 · #
Esse raciocínio se levado ao extremo acaba num buraco negro. Ninguém compra nada.. ninguem produz… ninguem come… ninguem se mexe para nada. Vai tudo para a floresta viver da natureza. Há aí qualquer coisa que não bate certo.
— CAGGP · 14 Maio 2009, 13:50 · #
Falta aí uma coisa.
Expectativas optimistas (as tais 2%) causam um endividamento acima do potencial da economia, o que se traduz em excesso de procura, aumento da inflação, aumento dos juros reais, o que leva à queda nos salários reais, à queda do consumo e do investimento. Isto por sua vez traduz-se na queda do produto interno bruto real. Para este novo nível de produto, dá-se a redefinição das expectativas (as tais 1%), o que origina o processo de convergência do salário do Zé Carlos para 821 Euros. Será que este é o salário no qual a economia real é igual à economia potencial? Será Multiplicação do Péssimismo ou convergência para o realismo.
— Vasco · 25 Setembro 2009, 17:27 · #