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Keynes, Ideologia, Pragmatismo
14 Maio 2009, por António Afonso

Nos anos 90 cimentou-se o entendimento (ideológico) quanto ao poder de auto-regulação dos mercados, e ganhou também terreno a convicção de uma dimensão mais reduzida do Estado. Observou-se o surgimento do que se pode apelidar como a “perspectiva de expectativas da política orçamental”. Ou seja, caso reduções da despesa pública sejam entendidas pelo público como tentatitivas sérias para diminuir as necessidades de financiamento do Estado, poderá verificar-se um efeito induzido de riqueza. Nesse sentido, o consumo privado poderia aumentar no presente, dado que os consumidores esperariam pagar menos impostos no futuro. Por outro lado, a redução das necessidades de financiamento do Estado diminui o prémio de risco associado à dívida pública, contribui para a redução das taxas de juro em termos reais, e pode originar um efeito de arrastamento positivo sobre o investimento privado. Ou seja, estaríamos no melhor dos mundos.

É interessante verificar que a possibilidade de consolidações orçamentais expansionistas aparece associada à chamada “abordagem Alemã” das consolidações orçamentais, defendida em 1981 pelo Conselho Alemão de Peritos Económicos, tendo dois economistas Hellwig e Neumann, contribuído nomeadamente com um artigo em 1987 (na revista Economic Policy). Este entendimento acabaria por ter influência nos critérios de convergência orçamental do Tratado de Maastricht e na elaboração do Pacto de Estabilidade e Crescimento. Será que o John Maynard nos seu tempos de Bedfrod Square, passeando por Bloomsbury, terá pensado num mundo de consolidações orçamentais expansisonistas?

Alguém me falou, com algum humor, sobre esta questão das consolidações orçamentais expansionistas como algo que se pode verificar se estiverem reunidas duas condições: i) o estudo é feito por economistas Italianos e ii) é sobre os países Nórdicos. Eu não iria tão longe, e uma abordagem pragmática na implementação da política económica parece o mais adequado, tentando alcançar o difícil equilíbrio entre Keynes e a idelologia liberal. A questão simples, embora algo demagógica, parece pois saber se queremos pagar impostos para financiar redes sociais de subsistência mínima ou para socorrer actividades privadas, tal como se pode observar em situações de crise económica e financeira (veja-se o caso de 2008), onde alguns lucros privados podem ser seguidos por perdas públicas. Em tais ocasiões, a questão dos efeitos não-keynesianos parece desaparer um pouco das agendas políticas e económicas. Ou seja, nem sempre as medidas de política económica implementadas serão as mais pertinentes mas sim as que são expostas de forma mais convincente perante a audiência e no contexto mais apropriados.

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  1. Subscrevo. Na minha opinião, daqui a algum tempo já se vai estar a falar novamente em privatizações e consolidação orçamental.
    Vai haver sempre crises alicerçadas em excessos, faz parte da natureza humana. Assim como haverá outros “loopholes” a aproveitar, pois o legislador legisla, na maior parte das vezes, em causa própria ou próxima. Em caso de desespero, não há mercados auto-regulados que valham, tem de ser o Estado a socorrer, e com a receita já conhecida, alicerçada em Keynes. Deste modo, estamos destinados ao movimento de incha e desincha no Estado, e a andar de bolha em bolha nos mercados financeiros. Desta vez, os desequilíbrios acumulados foram elevados, daí que a crise económica resultante também o seja. Mas rapidamente estaremos a caminho de uma bolha que alicerce o próximo ciclo de crédito.
    De facto, o que interessa é levantar de novo os “animal spirits” e entrarmos numa nova “silly season”, basta adoptar as políticas que mais agradem aos mercados financeiros. Pão e circo andam de mãos dadas, como se sabe desde os romanos.

    — Nuno Torres · 14 Maio 2009, 14:23 · #

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