A insustentável urgência da ética
13 Abril 2010, por Filipe Almeida
Há cerca de 200 anos, quando a economia começou a estruturar-se como ciência dedicada ao estudo sistemático das trocas e dos mercados, começou também a questionar-se a necessidade urgente da sua emancipação em relação às doutrinas morais que estudavam o bem e o mal, o justo e o injusto, impondo limites à conduta e à consciência. A jovem ciência emergente da economia, deslumbrada e cheia de vitalidade positiva, não poderia ficar prisioneira dos bons costumes, sob pena de sucumbir à preguiça da tradição ou do preconceito. Queria compreender o mundo tal como ele é, sem impor-lhe uma visão do que ele deveria ser. E assim, deu-se o divórcio da ética e da economia. Foi um divórcio amigável, já que os economistas não negavam as boas intenções da ética, embora a sua vocação normativa a tornasse aparentemente incompatível com os princípios gerais da concorrência e com as recém-descobertas leis do mercado.
Do fim daquele tempo antigo é Adam Smith (1723-1790), considerado por muitos como o “pai” da economia moderna, dos mercados abertos e da concorrência livre, onde o progresso colectivo seria alcançado se cada um buscasse o seu próprio interesse. Ficou a dever essa fama ao seu livro de 1776 sobre a natureza e as causas da “Riqueza das Nações”. E apesar disso, Adam Smith foi professor de filosofia moral na Universidade de Glasgow. Dezoito anos antes da sua obra económica fundamental, havia publicado a “Teoria dos Sentimentos Morais”, defendendo o sentimento de compaixão e a empatia como fontes do julgamento moral, reconhecendo a genuína capacidade do ser humano para obter real satisfação com o bem alheio. Fez sucessivas revisões deste livro até à sua morte e, segundo consta, considerava-o superior a todos os outros que escrevera.
Depois de Adam Smith, aos poucos a economia foi dispensando a ética como fonte de inspiração ou de restrição das suas análises, dos seus modelos ou das suas propostas. E raras vezes voltou a coincidir no mesmo autor o interesse simultâneo pela economia, pela moral e pela política. A economia tornou-se amoral e a moral tornou-se alheia à evolução dos mercados. Desde então, o mundo terá evoluído relativamente bem sem a influência dominante da filosofia, dirão alguns, com prodigiosos e indiscutíveis progressos económicos colectivos. Intensificaram-se as trocas, expandiu-se o comércio, desenvolveram-se novas tecnologias, criaram-se novos e amplos mercados de emprego, os bens e serviços tornaram-se mais acessíveis à população em geral, aumentaram os níveis de conforto dos cidadãos, os Estados aprenderam a estimular a riqueza e a redistribuí-la, as expectativas colectivas tornaram-se motor de novas ideias e a competitividade tornou-se uma lei soberana.
Os economistas, por seu lado, tornaram-se especialistas em desvendar as causas e os efeitos do mundo económico e até, em alguns casos, das relações sociais. O mundo rendeu-se à sabedoria da sua clarificação e à insubstituível orientação dos seus princípios. A lei do mercado e a lei dos Estados pareciam bastar, sem a subjectividade dos imperativos morais, sempre discutíveis e por isso incapazes de gerar boas soluções duradouras. A economia havia assegurado os progressos. A reflexão filosófica – com o debate das ideias antes das práticas e dos imperativos antes dos efeitos – tornara-se um exercício aparentemente ultrapassado e frequentemente inútil.
E no entanto, devemos à filosofia de Jeremy Bentham (1748-1832) o ensino e a universidade acessíveis a todas as classes com a fundação da Universidade Londres, contrariando o elitismo de Oxford e de Cambridge. À inspiração universalista do utilitarismo de John Stuart Mill (1806-1873) o sufrágio universal, a igualdade de direitos entre homens e mulheres, a abolição da escravatura e os princípios da tributação como instrumento da justiça distributiva e do Estado-providência. Ao pensamento de John Locke (1632-1704) a concepção de Estados laicos, com governos independentes das igrejas, com a política independente da religião. A Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) o ideal democrático da soberania do povo. A Jean-Paul Sartre (1905-1980) a crítica fundamental ao anti-semitismo. À filosofia de Immanuel Kant (1724-1804) os imperativos racionais que dariam origem à formulação dos códigos deontológicos profissionais.
Os progressos humanos, na verdade, nunca dispensaram a filosofia e a ética. Durante quase dois séculos a economia tentou tornar-se amoral e com ela as empresas e os empresários, as políticas e os políticos. E isso reflectiu-se nas fórmulas de êxito empresarial, nos modos de governar e até nas escolhas educativas. A filosofia no ensino foi progressivamente desvalorizada, consolidando o descrédito popular, confiado no seu residual interesse histórico e na sua evidente inutilidade prática. Incluí-la nos estudos económicos comprometeria a objectividade das análises e a neutralidade matemática dos modelos, dirão os resistentes – o mundo terá de facto evoluído bem sem a filosofia e sem os filósofos ao comando das mudanças e das políticas. Este lamentável equívoco é o maior dos perigos que enfrentamos porque a educação é o maior dos poderes de que dispomos para alcançar o maior dos bens a que aspiramos: a liberdade.
A economia, sem ética, dispensa a discussão dos fins a que se propõe, tornando-se perigosamente cega. A prática empresarial, sem a responsabilização moral dos seus agentes, dispensa o questionamento dos meios que usa para atingir os fins, tornando-se inaceitavelmente indiferente aos impactos sociais e ambientais que provoca. Os perigos deste divórcio parecem ser, hoje, evidentes. E já há bons sinais do inevitável reencontro da economia com a ética e de ambas com a política. Mas nunca é demais insistir na urgência da reflexão ponderada sobre os fins da economia, da apreciação ética das escolhas colectivas, da indispensável vigilância sobre o valor moral das práticas empresariais, sob pena da mais leve distracção tornar o mundo política e economicamente insustentável.
Alfred Nobel, quando faleceu em 1896, deixou em testamento a vontade expressa de que a sua fortuna financiasse uma fundação que premiasse anualmente quem mais tivesse contribuído para o desenvolvimento da humanidade, em cinco áreas do conhecimento, da criação e da acção humanas: a Física, a Química, a Medicina, a Literatura e a Paz. O sexto prémio – o da Economia – tem de facto a designação “Prémio de Ciências Económicas em memória de Alfred Nobel” e foi criado apenas em 1968 pelo Banco Central da Suécia, que o financia até hoje, nada tendo a ver com os prémios Nobel, sendo a confusão estabelecida apenas pela referência ao nome do falecido engenheiro sueco. Perante isto, podemos questionar por que razão Alfred Nobel não terá reconhecido à Economia a importância fundamental que indiscutivelmente tem no desenvolvimento das sociedades e no progresso da humanidade. Gosto de pensar que Alfred Nobel, naquela época, talvez acreditasse que quem merecesse o prémio de Economia seria o candidato ideal ao prémio Nobel da Paz.
Notas:
Filipe Almeida é autor do livro * Autor do livro “Ética, Valores Humanos e Responsabilidade Social das Empresas (Editora Princípia)
*(No âmbito de uma parceria entre a e.conomia.info e o jornal Público, este texto foi publicado em simultâneo na secção de economia do diário na edição de dia 18 de Abril)
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A minha formação não é na área das ciências económicas. No entanto, há muito que tenho vindo a defender(informalmente) o renascimento das ciências sociais. É necessário que filósofos, sociólogos entre outros, tenham peso nas decisões quotidianas. Só os consultando poderemos evitar catastrofes sociais e basta olhar para o passado ou mesmo para outros países para tentar aprender com os erros.
Em países de referência já temos,exemplo, filósofos a gerir hospitais por com resultados encantadores. Em Portugal insistimos em ir atrás de politicas e exemplos falhados.
Parabéns pelo artigo, já é tempo de começarmos a aprender com os bons exemplos.
— Ricardo Filipe Oliveira · 21 Abril 2010, 11:23 · #