O erro das políticas anti-crise: imprevisibilidade
7 Março 2010, por Carlos Santos
A dimensão dos défices orçamentais no Ocidente fazem crer que o revivalismo da política contra-cíclica, em que o Estado usa os instrumentos ao seu dispor para atingir metas económicas a curto prazo, veio para perdurar. Independentemente da inconsistência interna de alguns desses propósitos com a imperativa necessidade de diminuir o endividamento, mormente nas zonas periféricas do Euro. Contudo, uma nova questão emerge da investigação que levei a cabo com o David Hendry 1 : que ganhos antecipavam estas políticas, dado que, demonstramo-lo, os efeitos da política económica são sempre imprevisíveis?
No final dos anos 70, a Escola de Chicago, pela voz de Robert Lucas, argumentou no sentido da ineficácia da política económica, embora sem qualquer suporte que não a suposição teórica de que os agentes teriam expectativas racionais, isto é, antecipariam as decisões de política correctamente, em média, e tê-las-iam em conta na formulação de decisões. Os efeitos previstos, com base em certos modelos de comportamento históricos, estariam neutralizados pela incorporação antecipada que os agentes teriam feito. A conhecida Crítica de Lucas foi ignorada por governos e bancos centrais ao longo de 30 anos, designadamente nesta crise. Em grande medida, dizia-se, porque não havia evidência empírica que a apoiasse.
No recente livro de homenagem ao Nobel Robert Engle, com contributos de alguns dos maiores especialistas mundiais, o David e eu apresentamos um novo procedimento para avaliar a Crítica de Lucas: um novo teste de super exogeneidade. Na essência, o método permite detectar mesmo pequenas variações nos parâmetros comportamentais dos agentes económicos que sejam coincidentes com mudanças na política. Se as alterações existissem, a previsão ex-ante dos efeitos da política económica seria inviável. Diferentemente, havendo invariância, o keynesianismo ocidental do último ano e meio estaria certo.
As conclusões, já apresentadas em seminários e conferências, revalidam o que Lucas advogou. Aplicando o novo teste a situações onde anteriormente se tinha concluído pela invariância dos parâmetros comportamentais dos agentes privados face à política, invalidando a crítica de Lucas, os resultados que apresentamos mostram que existiram respostas não detectadas nesses estudos. Os agentes alteraram o seu comportamento entre o momento em que as autoridades fizeram exercícios de previsão dos efeitos de mudanças de conduta, e os momentos em que estas foram implementadas, resultando em erros de previsão de magnitude apreciável.
Ao detectar ausência de invariância, não estamos a validar a racionalidade postulada por Lucas. O que afirmamos é que as opções manipulativas do mercado para contrariar o ciclo carecem de base científica. Esses “truques” de política económica terão efeitos que podem até, como se constata no nosso estudo, ser contrários ao que seria razoável com racionalidade perfeita.
A conclusão da análise é transparente: a melhor forma de lidar com as oscilações cíclicas da economia é deixar os mercados operarem livremente, não tentar contrabalançar efeitos tidos por indesejáveis com actuações de política pública. Qualquer intervenção do Estado ou de um Banco Central produz efeitos que quem os induziu não tem capacidade de prever, podendo agravar o processo recessivo. Já não se trata de a política económica ser neutra como pensava Lucas: ela pode mesmo ser contrária aos objectivos antecipados.
Os novos métodos estatísticos vêm validar a hipótese de Hayek sobre os ciclos e a política, concluindo que os défices correntes podem nada resolver (como se está a ver ao nível do desemprego, que se continua a agravar quando os efeitos dos pacotes de estímulos se estão a diluir), deixando apenas uma factura pesada em temos de dívida pública. A recomendação é clara: nas “exit strategies” dos pacotes anti-crise, os governos ocidentais devem apostar na desalavancagem das economias fortemente endividadas e não recear o aprofundamento de ciclos recessivos, porque no limite, as suas intervenções podem agravá-los. E devem reter para o futuro os ensinamentos desta crise: contrariamente à “vox populi”, corrigir um erro de regulação com velhos instrumentos keynesianos de sustentação da procura só potenciou o problema.
Notas:
1. Hendry, D. F. a Santos, C. (2010) An automatic test of super exogeneity in Volatility and Time Series Econometrics, Essays in Honour of Robert F Engle, Mark Watson, Tim Bollerslev (eds) Advanced Texts in Econometrics, Oxford University Press
*(No âmbito de uma parceria entre a e.conomia.info e o jornal Público, este texto foi publicado em simultâneo na secção de economia do diário na edição de dia 7 de Março)
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