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A instabilidade dos mercados financeiros*
7 Fevereiro 2010, por José Jorge

“The only thing that we have to fear is fear itself”, Franklin Roosevelt.

A compreensão dos mecanismos que geram instabilidade nos mercados financeiros é um dos grandes desafios da ciência económica e financeira, sendo a crise recente o exemplo perfeito do tipo de problemas que enfrentamos.

Para ajudar a compreender este fenómeno, Hyun Song Shin 1 apresentou uma analogia elucidativa baseada na história da Millennium Bridge em Londres. Esta ponte pedonal foi construída para celebrar o ano 2000 e tem um desenho inovador. Baseada em “suspensão lateral”, não necessita de colunas altas para a suportar, criando a ilusão de uma “lâmina luminosa” sobre o rio Tamisa. Resultou do esforço conjunto da Arup (que participou na construção da Ponte de Pedro e Inês, em Coimbra, e da Casa da Música, no Porto), da Foster and Partners (firma liderada pelo arquitecto Sir Norman Foster) e do escultor Sir Anthony Caro.

Muitos milhares de pessoas acorreram à inauguração e, poucos momentos após a abertura, a ponte começou a balouçar violentamente. Imagens podem ser vistas no Youtube (aqui). A ponte foi fechada mais tarde e assim permaneceu durante 18 meses.

Os testes de engenharia feitos posteriormente detectaram que, quando a ponte era sujeita a vibrações de um ciclo por segundo, o balouçar observado no dia da inauguração reaparecia. Ao caminhar normalmente damos dois passos por segundo e, como o nosso corpo balouça ao caminhar e os nossos pés exercem uma pressão lateral, os técnicos especularam se essa seria a razão das oscilações horizontais observadas na ponte.

É bem sabido que quando soldados atravessam uma ponte, devem deixar de marchar para evitar que a frequência do seu passo faça a ponte oscilar e ruir. A tendência de um sistema em oscilar em grandes amplitudes em certas frequências é conhecido como ressonância. Nessas frequências, até mesmo forças pequenas podem produzir vibrações de grande amplitude, pois o sistema armazena energia vibratória.

Como poderia este problema afectar a Millennimum Bridge? No dia da inauguração milhares de peões atravessaram a ponte mas o balouçar de uma pessoa para a esquerda deveria contrariar o balouçar de outra para a direita, e as forças laterais exercidas pelos peões deveriam compensar-se entre si (um fenómeno conhecido em estatística como a Lei dos Grandes Números). O senso comum diz-nos que a probabilidade de um milhar de pessoas, a caminhar ao acaso, acabarem por alinhar os seus passos e assim permanecerem será muito baixa. O princípio da diversificação sugere que ter muitas pessoas sobre a ponte seria a melhor forma de anular as forças laterais.

Contudo, é necessário ter em atenção a forma como as pessoas reagem ao ambiente que as rodeia. Os peões sobre a ponte reagem à forma como a ponte se move sob os seus pés. Quando a ponte balança, os peões ajustam o seu passo para recuperar o equilíbrio. E todos os peões ajustam simultaneamente o seu passo, conduzindo à sincronização dos passos. Este movimento coordenado reforça o balouçar da ponte que, por sua vez, força os peões a ajustar o seu passo de forma mais precisa. O balouçar da ponte acaba por se reforçar a si próprio, continuando mesmo se o choque inicial que despoletou as oscilações for pequeno e temporário.

O fenómeno da ressonância é particularmente importante em pontes e é a razão pela qual a passagem de peões é limitada na Ponte D. Luís na noite de São João e se encontram encerradas as pontes pedonais que unem a Gare do Oriente ao Centro Comercial Vasco da Gama. O caso mais famoso do colapso de uma ponte pode ser observado no Youtube (aqui)

Que tem a ver esta história com os mercados financeiros? Os mercados financeiros são um caso exemplar de um ambiente onde os indivíduos reagem ao que acontece à sua volta e onde as acções dos indivíduos influenciam os próprios resultados. Há inúmeras situações em que bancos e investidores têm comportamentos semelhantes aos peões e em que os movimentos da ponte são análogos a variações nos preços dos activos.

Os bancos ajustam activamente os seus balanços e as suas estratégias prescrevem a venda de activos assim que os preços descem mais do que determinado montante. Se todos os investidores seguirem estratégias semelhantes, uma pequena descida de preços inicia uma reacção dos agentes que, por sua vez, reforça a descida dos preços o que incita os investidores a reforçar as vendas… Subitamente surge um excesso de oferta, uma falta de liquidez no mercado e a consequente descida abrupta dos preços. Os efeitos financeiros descritos são agravados quando vigoram princípios contabilísticos assentes em regras de mark-to-market em que o valor dos activos reflecte instantaneamente os preços de mercado. Neste contexto, os choques são amplificados dentro do próprio sistema e, eventos como a falência da Lehman Brothers, provocam grandes variações nos preços e na liquidez dos mercados.

O problema da ponte londrina foi resolvido com a inclusão de dissipadores de energia que atenuam o seu balouçar. No caso dos mercados financeiros, cabe à política económica limitar flutuações exageradas, dissipando os efeitos de choques económicos adversos. Infelizmente para as vítimas da crise actual, os economistas sabem menos sobre as leis da economia do que os engenheiros sobre as leis da física.

Notas:
1. Hyun Song Shin, Commentary: Has financial development made the world riskier? Symposium Proceedings 2005 – Fed Reserve Bank of Kansas City

Este texto é baseado numa apresentação feita no workshop “Financial Supervision and Regulation: Lessons from the Crisis and Challenges Ahead” organizado pelo GPEARI – Ministério das Finanças e da Administração Pública.

*(No âmbito de uma parceria que agora se inicia entre a e.conomia.info e o jornal Público, este texto foi publicado em simultâneo na secção de economia do diário na edição de dia 7 de Fevereiro)

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  1. excelente texto e boa novidade

    — rui carp · 8 Fevereiro 2010, 11:33 · #

  2. Muito bem escrito!
    Uma forma muito transparente de explicar o que, na maior parte das vezes, parece tão nebuloso.

    — Raquel Moutinho · 8 Fevereiro 2010, 18:22 · #

  3. O problema não é tanto os economistas saberem menos das leis da Economia, mas mais as pressões políticas e de procura do lucro, que levam: 1) à desregulação excessiva dos mercados; 2) e ao deconhecimento das autoridades sobre a verdadeira natureza de grande parte das transacções financeiras mais complexas.

    — Afonso · 11 Fevereiro 2010, 16:08 · #

  4. O problema não é nem o que o autor do texto diz, nem sequer a desregulação dos mercados (ainda bem que ela foi feita). O problema é a atitude “holier than thou” dos governos, que acham que podem deixar os mercados funcionar quando dão para o bem e impedir as consequências quando dão para o torto. Não podem. Os economistas sabem o suficiente das leis da Economia para perceberem como este problema se soluciona: é só deixar o mercado funcionar. E o mercado ajustará, como sempre ajusta. Doeria? Ah, isso com certeza. O problema dos governos em deixar com que isso aconteça é o facto de terem de enfrentar eleições e faltar-lhes coragem política. Mas só deixando que o mercado funcione e faça a sua selecção natural é que se pode ter crescimento sustentável.

    — João Sousa · 11 Fevereiro 2010, 19:24 · #

  5. A analogia está fantástica! Infelizmente, vejo-me forçado a concordar: os economistas ainda sabem menos da sua área que os físicos.

    — Guilherme Oliveira · 17 Fevereiro 2010, 12:31 · #

  6. Ilmo. jose Jorge, como colocar a economia em quarentena durante 18 meses? Uma ponte liga dois pontos, a Economia…Pontos aparentemente se desligam

    — Amarilio Luiz de Santana · 1 Março 2010, 03:00 · #

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