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Destruição de emprego em Portugal e a adesão ao euro
4 Novembro 2009, por Miguel Portela

A economia portuguesa não escapou ao processo de desindustrialização que desde o início dos anos 80 afectou a maioria dos países desenvolvidos: de acordo com a OCDE, entre 1988 e 2006 a percentagem da população activa a trabalhar na indústria em Portugal diminuiu de cerca de 25% para 18%. Na figura 1., que apresenta a evolução naquele período do peso das manufacturas, por nível de tecnologia, no emprego total por conta de outrem, podemos ver que a desindustrialização em Portugal incidiu exclusivamente nas indústrias de baixa e média-baixa tecnologia. As manufacturas perderam cerca de 150 mil empregos entre 1988 e 2006, o que no essencial corresponde aos empregos perdidos no sector do têxtil e calçado. No entanto, apesar destas perdas de emprego, deve salientar-se que, em 2006, os sectores de baixa e média-baixa tecnologia ainda representavam mais de 80% do emprego total por conta de outrem nas manufacturas.

As inovações tecnológicas e a globalização têm sido apontadas como as principais causas da desindustrialização dos países desenvolvidos nas últimas décadas. No entanto, nenhuma mudança estrutural na economia portuguesa, como a da tendência decrescente observada no emprego dos sectores industriais de baixa tecnologia acima descrita, poderá ser explicada sem se tomar em consideração os efeitos directos e indirectos da integração de Portugal na Comunidade Económica Europeia em 1986, a adesão ao Sistema Monetário Europeu (SME) em 1992 e a participação no euro em 1999. Um dos efeitos directos da adesão ao SME e ao euro foi a restrição imposta aos movimentos da taxa de câmbio nominal.

Entre 1988 e 1992, com a preparação da adesão ao SME e o consequente abandono do regime de desvalorizações competitivas que vigorava na economia portuguesa desde finais dos anos 1970, registou-se uma apreciação real da moeda portuguesa superior a 20% (ver figura 2). O período que se seguiu à crise do SME, em 1992 e 1993, e à decisão de adesão ao euro, caracterizou-se por pequenas variações na taxa de câmbio real efectiva. Entre 1999, ano da adesão ao Euro, e 2006, a taxa de câmbio real efectiva apreciou-se cerca de 7%.

A teoria económica sugere que se investigue a coincidência entre a diminuição do emprego nas manufacturas e a apreciação da taxa de câmbio real efectiva. A taxa de câmbio real reflecte alterações nos preços dos bens nacionais relativamente aos preços dos bens estrangeiros, que afectam a competitividade internacional das empresas. Vários estudos mostraram que apreciações fortes e prolongadas da taxa de câmbio real, isto é, um aumento dos preços dos bens nacionais relativamente aos bens estrangeiros concorrentes, podem resultar numa destruição significativa de postos de trabalho: por exemplo, dois economistas americanos (William Branson e James Love) estimaram que a apreciação do dólar em cerca de 30% na primeira metade da década de 1980 terá provocado a perda de um milhão de postos de trabalho.

Na avaliação do impacto das variações cambiais, a teoria tradicional do comércio internacional enfatiza o grau de exposição à concorrência internacional. As conclusões desses estudos mostram que os sectores mais dependentes dos mercados externos, quer para a exportação de produtos, quer para a importação de matérias-primas, são os mais afectados pelas variações da taxa de câmbio. No entanto, os novos modelos de comércio internacional concluem que a reacção à abertura ao comércio internacional e a choques externos dependem também das características das empresas. Neste contexto, um artigo recente concluiu que a reacção das empresas a variações cambiais depende da sua produtividade: as empresas de baixa produtividade face a uma apreciação da moeda reduzem as quantidades exportadas, enquanto as empresas de elevada produtividade optam por fazer o ajustamento nas margens de lucro. Fazendo uma extensão dos resultados daquele modelo para o mercado de trabalho, os autores deste artigo concluíram que o emprego nos sectores mais expostos à concorrência internacional e com menor produtividade é o mais afectado pelas variações da taxa de câmbio 1.

Sendo a economia portuguesa muito aberta à concorrência internacional e predominando na sua estrutura produtiva as empresas de baixa tecnologia, aqueles resultados sugerem que a apreciação da taxa de câmbio real poderá ter sido um importante factor na destruição de emprego nas manufacturas no período 1988-2006. Esta hipótese é corroborada pelos testes empíricos, que sugerem que os sectores da economia portuguesa mais afectados pela apreciação da taxa de câmbio real foram os sectores com menor conteúdo tecnológico, a que corresponde uma menor produtividade, e dentro destes, os que estão mais expostos à concorrência internacional. Entre estes sectores encontra-se o sector do têxtil e calçado, que, como foi referido, registou uma destruição líquida de empregos correspondente, aproximadamente, ao total de empregos perdidos nas manufacturas naquele período.

Notas:
1. F. Alexandre, P. Bação, J. Cerejeira, M. Portela, 2009. “Employment and Exchange Rates: The Role of Openness and Technology,” IZA Discussion Papers 4191, Institute for the Study of Labor (IZA), Bonn

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  1. Tudo o que está escrito é tecnicamente correcto,contudo,sendo mais directo,humildemente penso que todas as politicas económicas induzidas ao longo dos anos retiraram dimensão ao efeito multiplicador do produto potencial.E este, tão só, aumentou sustentado em politicas de curto prazo e em artificialismos (técnicos) assentes nas transferências de capitais ou em receitas extraordinárias e criação de divida(publica e privada).Os ciclos da especiarias,da escravatura, do café, do ouro,dos fundos europeus e ultimamente dos juros baixos, já eram.O que nos reserva o futuro? A perda de soberania e o atraso tecnológico, se nada for feito…entretanto.

    — Antonio A. Dias · 4 Novembro 2009, 22:38 · #

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