O longo caminho das empresas portuguesas até poderem salvar as contas externas
19 Agosto 2009, por Armando Pires
(Parte 2 do texto Marc Melitz: comércio internacional, produtividade e Portugal)
Na primeira parte deste artigo falámos da literatura sobre comércio internacional e produtividade iniciada por Marc Melitz, da Universidade de Princeton. Como dissemos, Melitz (2003) parte da observação empírica de que as empresas diferem em termos de produtividade e competitividade. Neste sentido, apenas as empresas mais competitivas se conseguem tornar exportadoras ou multinacionais, uma vez que só estas conseguem suportar os maiores custos envolvidos na internacionalização das suas actividades.
Uma das limitações do modelo de Melitz é que não explica como as empresas se tornam assimétricas em termos de produtividade (isto é, a produtividade das empresas é assumida como exógena). De facto, esta literatura invariavelmente assume que as empresas “tiram” aleatoriamente a sua produtividade de uma distribuição estatística, semelhante ao que acontece com os números do bingo. No entanto, como se sabe, a produtividade das empresas resulta de escolhas estratégicas. Dito de outro modo: na vida real, a produtividade é endógena.
O problema das questões endógenas é até que ponto se pode endogeneizar um fenómeno. Por exemplo, pensa-se que o “Big Bang” desencadeou a criação do universo. Mas o “Big Bang” é um acontecimento exógeno, pelo que interessa também saber o que o despoletou – este é aliás o objectivo do acelerador de partículas Laboratório Europeu de Física de Partículas (CERN). Ora, se o CERN conseguir uma resposta e endogeneizar o “Big Bang”, a questão que surge depois é como explicar o acontecimento que o precedeu; um exercício que se pode repetir até ao infinito. A resposta que a ciência tem dado a este problema é centrar-se em identificar o que se quer endogeneizar, para depois explicar apenas este acontecimento. No nosso caso, a produtividade das empresas.
E foi exactamente isso que tentámos fazer num recente trabalho recentemente aceite para publicação na “Economics Letters” (Garcia Pires, 2009). Adoptámos como ponto de partida um dos factores que torna as empresas assimétricas em termos de produtividade: investimento em investigação e desenvolvimento (I&D). No entanto, um modelo “standard” de investimento em I&D não pode despoletar assimetrias na produtividade entre empresas inicialmente simétricas, uma vez que estas têm incentivos iguais para investir. Para ultrapassar esta dificuldade, a ideia que introduzimos foi a de que se uma empresa tiver uma vantagem de “first-mover” ao investir em I&D, então é possível endogeneizar assimetrias entre empresas inicialmente simétricas.
As vantagens de “first-mover” são uma ideia bastante antiga do economista alemão Heinrich von Stackelberg que a apresentou pela primeira vez em 1934. Todavia, as vantagens de “first-mover” como apresentadas no modelo “standard” de Stackelberg apenas podem explicar o facto de algumas empresas produzirem mais, e não porque é que possuem diferentes níveis de produtividade. É aqui que entra o investimento em I&D. Este tipo de investimento permite às empresas não só melhorar a sua produtividade como, se usado estrategicamente, também afectar a produtividade das concorrentes. Por exemplo, quando uma empresa como a Google anuncia um projecto de I&D, as empresas rivais tem que reagir. No entanto, como a opção das empresas rivais da Google é reactiva e não pró-activa, então no final do jogo competitivo, as rivais poder-se-ão encontrar ainda em mais desvantagem em termos de produtividade e competitividade.
Assim, para as empresas, o mais importante é não só investir em I&D mas, principalmente, usar esse investimento de forma estratégica para afectar o jogo de mercado. Neste sentido, os fundos do Estado para investimento em I&D podem não ser suficientes para ganhar vantagem no mercado internacional, porque muitas vezes estes subsídios são usados pelas empresas de forma não pró-activa.
Não é por acaso que em Portugal não só o investimento em I&D está abaixo da média na OCDE mas também a maior parte deste investimento provém de subsídios estatais e não de fundos privados. De facto, ao passo que o investimento total em I&D em Portugal (público e privado) representa somente 0,79% do PIB, a média na OCDE é de 1,62% do PIB. Do mesmo modo, enquanto em Portugal 66% do investimento em I&D resulta de subsídios estatais, a média na OCDE é de apenas 36% do investimento total em I&D (gráfico). Uma vez que o investimento em I&D tem uma importância determinante na produtividade e no desempenho exportador, então as empresas portuguesas têm um longo caminho a percorrer até que as possamos olhar como as “salvadoras” das contas externas portuguesas.
Referências:
Garcia Pires, A.J. (2009), “R&D and Endogenous Asymmetries between Firms”, Economics Letters, 103, pp. 153–156.
Melitz, M. (2003), “The Impact of Trade on Intra-Industry Reallocations and Aggregate Industry Productivity”, Econometrica, 71, pp. 1695-1725.
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O problema da empresas nacionais em relação à produtividade é o mesmo que o fenómeno da vida de qualquer fruto : está verde, maduro ou podre.Vem de um árvore sã e forte? e de que tipo de pomar? Com que forma e meios chegará às mãos do consumidor final.Quanto à questão da endogenidade ou não, é paralela à do ovo e da galinha.
— Antonio M. Alves Dias · 4 Novembro 2009, 12:21 · #