Marc Melitz: comércio internacional, produtividade e Portugal (Parte 1)
3 Junho 2009, por Armando Pires
Desde 1988, cada dez anos, a revista “The Economist” revela o nome de 8 jovens economistas considerados pelos seus pares como os mais promissores da sua geração. Na passada edição de 28 de Dezembro de 2008, esta lista foi revelada mais uma vez. Entre os nomeados estava Marc Melitz (Universidade de Princeton) 1, do qual nos propomos falar neste artigo a propósito do seu trabalho em comércio internacional e produtividade.
Para perceber a importância desta nomeação, basta dizer que há vinte anos atrás estava nesta lista nada menos que Paul Krugman. Como se sabe, Krugman foi premiado em 2008 com o Nobel em Economia, devido ao seu trabalho em comércio internacional e geografia económica. Curiosamente, Krugman e Melitz estão directamente relacionados, uma vez que o ponto de partida de Marc Melitz é o modelo de Paul Krugman para o comércio internacional.
A ideia de base de Melitz é a de que as empresas são por natureza assimétricas, ou seja, umas são mais competitivas e produtivas que outras. Esta inovação pode parecer alarmantemente simples, mas a teoria do comércio internacional trabalhou sempre com a hipótese de firmas simétricas em termos produtividade. As assimetrias na competitividade no modelo de Melitz fazem com que apenas as melhores firmas (as mais competitivas) exportem e se tornem multinacionais. Neste sentido, o benefício do comércio internacional é que este aumenta a produtividade das indústrias, porque dá oportunidade às empresas mais competitivas de ganhar uma maior quota de mercado. Ou seja, a concorrência internacional elimina as empresas menos competitivas, aumentando a produtividade média de uma indústria.
A popularidade do modelo de Marc Melitz deve-se ao facto que este assenta que nem uma luva em evidência empírica vinda ao de cima nos últimos anos. Esta nova evidência empírica (ver por exemplo, Bernard et al., 2005) demonstra em primeiro lugar que a maioria das empresas num país não exporta, nem é multinacional. Por exemplo, nos EUA apenas cerca de 1,1% das empresas é exportadora-importadora e cerca de 0,2% é multinacional exportadora-importadora (ver tabela 1). Do mesmo modo, as exportações tendem a ser dominadas por apenas alguns exportadores de topo (por exemplo, em França, 1% das empresas contribuem para cerca de 68% das exportações, ver tabela 2). Além disso, as empresas que exportam são maiores e mais produtivas que as empresas que não exportam, e as empresas multinacionais são maiores e mais produtivas que as empresas que exportam e que as empresas que não exportam. Por exemplo, em França as empresas que exportam possuem um prémio de produtividade cerca de 2,68% superior ao das empresas que não exportam. Por sua vez, as multinacionais francesas tem um prémio de produtividade de cerca de 22,68% em relação às empresas que apenas exportam ou que vendem unicamente no mercado doméstico (ver tabela 3).
A influência das ideias de Marc Melitz começou como seria de esperar nos meios académicos. No entanto, ultimamente esta influência tem extravasado para círculos políticos. Recentemente, a Comissão Europeia encomendou um estudo ao “Think Tank” Europeu BRUGEL (especializado em assuntos económicos) e ao centro de estudos económicos CEPR em Londres, sobre a produtividade das empresas europeias (Mayer e Ottaviano, 2008). Os autores do estudo – Gianmarco Ottaviano (Universidade de Bologna) e Thierry Mayer (Universidade Paris 1) – convidaram uma série de economistas de vários países europeus para apresentarem resultados dos seus respectivos países. Para além da França e Itália, responderam a este apelo economistas da Inglaterra, Noruega, Suécia, Hungria, Alemanha e Bélgica. Portugal não respondeu ao convite, pelo que mais uma vez perdeu a oportunidade de fazer um raio-X ao seu tecido económico.
Este assunto revela-se importante porque, como muitos economistas tem alertado, o equilíbrio das contas externas da economia portuguesa passa pelo lado das exportações. Revela-se, por isso, imperativo conhecer a realidade das empresas exportadoras portuguesas. Parece-me deste modo conveniente e aconselhável que se realizem estudos sobre a produtividade das firmas portuguesas envolvidas em comércio internacional. Só através deste conhecimento se poderão desenvolver políticas com real impacto no sector exportador português.
Notas:
1. Outros economistas nesta lista são Jesse Shapiro, Roland Fryer, Esther Duflo, Amy Finkelstein, Raj Chetty, Ivan Werning e Xavier Gabaix.
Tabela 1. Exportadoras e multinacionais nos EUA
| Tipo de empresa | Número empresas | % Total |
|---|---|---|
| Exportador | 167.217 | 3,1 |
| Importador | 117.812 | 2,2 |
| Exportador e importador | 60.587 | 1,1 |
| Multinacional exportador | 28.281 | 0,5 |
| Multinacional importador | 24.324 | 0,4 |
| Mult. exportador e importador | 9.559 | 0,2 |
| Total | 5.474.639 | 100 |
Fonte: Bernard et al. (2005)
Tabela 2. Top exportadoras, % das exportações
| País | Top 1% | Top 5% | Top 10% |
|---|---|---|---|
| Alemanha | 59 | 81 | 90 |
| França | 68 | 88 | 94 |
| Reino Unido | 42 | 69 | 80 |
| Itália | 32 | 59 | 72 |
| Hungria | 77 | 91 | 96 |
| Bélgica | 48 | 73 | 84 |
| Noruega | 53 | 81 | 91 |
Fonte: Mayer e Ottaviano (2008)
Tabela 3. Prémios de produtividade de exportadoras e multinacionais
| País | Prémio exportadoras | Prémio multinacionais |
|---|---|---|
| França | 2,68 | 22,68 |
| Reino Unido | 1,29 | - |
| Itália | 2,14 | - |
| Hungria | 13,53 | - |
| Bélgica | 14,8 | 24,65 |
| Noruega | 7,95 | 11 |
Fonte: Mayer e Ottaviano (2008)
Referências
Bernard, A.; Jensen, B. e Schott, P. (2005), “Importers, Exporters, and Multinationals: A Portrait of Firms in the U.S. that Trade Goods”, NBER Working Papers 11404.
Mayer, T. e Ottaviano, G. (2008), “The Happy Few: The Internationalisation of European Firms”, Intereconomics, 43, pp. 135-148.
Melitz, M. (2003), “The Impact of Trade on Intra-Industry Reallocations and Aggregate Industry Productivity”, Econometrica, 71, pp. 1695-1725.
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A importância das assimetrias de competitividade entre empresas e países, especialmente devido a economias de escala, está bem patente no comércio bilateral Portugal-Espanha.
Ver artigo De nuestros proveedores a nuestros clientes”, Economia Pura, Dez-2005
— P Lusofonia · 2 Janeiro 2010, 14:05 · #