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A Europa arrisca uma crise financeira como a dos EUA e está pior preparada para lidar com ela
21 Setembro 2008

A Europa arrisca uma crise financeira como a dos EUA e está pior preparada para lidar com ela

O presidente do Centre for European Policy Studies, defende em entrevista que as autoridades europeias têm de estar em estado de alerta quanto à possibilidade de terem de lidar com desafios semelhantes aos que marcaram a semana passada. Ainda mais quando o enquadramento institucional na Europa está pior preparado para lidar com o tipo de desafios que se colocaram a semana passada nos EUA.


Daniel Gros, economista e presidente do Centre for European Policy Studies, defende em entrevista que as autoridades europeias têm de estar em estado de alerta quanto à possibilidade de terem de lidar com desafios semelhantes aos que marcaram a semana passada nos EUA. Num comentário publicado na semana passada, Gros juntamente com Stefano Micossi, explicam a importância para a Europa do salvamento da AIG e evidenciam os elevados níveis de alavancagem dos grandes bancos europeus, uma situação que descrevem no comentário como “um desastre à espera de acontecer”. São os primeiros a avisar para os riscos de uma crise semelhante à americana chegar à Europa e da pouca preparação das autoridades para lidarem com ela.

Diz que apenas a AIG tinha tinha segurados cerca de 300 mil milhões de dólares em créditos de bancos europeus, o que explica em parte a importância de ter sido salva. Qual era o risco em causa?
Os bancos têm nos seus balanços empréstimos. Uma forma de não ter de provisionar esse dinheiro, tal como é imposto pelo rácios regulatórios de solvabilidade, passa por contrair seguros contra as perdas por não reembolso do dinheiro emprestado. Só a AIG estava a segurar cerca de 300 mil milhões desses créditos contra “default” a bancos europeus. Esta é uma prática aceite pelos reguladores uma vez que supostamente o banco deixa de correr esse risco.

Tem alguma ideia de quanto dinheiro os bancos europeus têm nesta situação?
Não temos dados que permitam avaliar, mas o que evidenciamos é que existe uma grande discrepância entre os níveis de alavancagem de alguns dos grandes bancos, que em certos casos se aproximam de 50([%] por erro de tradução incluiu-se um sinal de percentagem quando o significado efectivo é os activos serem 50 vezes superiores ao capital próprio. As nossas desculpas a Daniel Gros e aos leitores), e o nível permitido pelos reguladores que na maioria dos casos é de apenas 10 a 12.

O salvamento da AIG evitou ondas de choque para a Europa. No entanto diz que os problemas não acabaram…
A AIG será em princípio liquidada, o que quer dizer que muitos dos contratos de seguro em vigor não serão renovados na maturidade. Isso significa que em determinando momento no futuro os bancos vão ter de contratar novos seguros ou encontrar capital que lhes permita cumprir com os rácios legais. Ambas as possibilidades podem ser difíceis e caras, dadas as actuais condições.

Alguns analistas na Europa defendem que, como não temos bancos de investimento do tipo americano, o sistema financeiro europeu está mais defendido. Concorda?
Acho que é o oposto. Na Europa temos o mesmo tipo de negócios, mas estão integrados nos bancos comerciais. É isso que explica os elevados níveis de alavancagem que observamos.

Diz que “o BCE e os reguladores europeus estão a viver à custa de tempo emprestado”. Podemos mesmo ter este tipo de problemas de insolvência na Europa? Há forma de os antecipar ou podemos acordar um dia e ouvir que a crise aterrou neste lado do Atlântico?
Podemos ter este tipo de problemas e é muito difícil ou mesmo impossível antecipá-los. O que sabemos é que existem elevados níveis de alavancagem em alguns dos maiores bancos europeus. Se acontecer, então iremos provavelmente ouvir um dia de manhã que algum desses bancos está a enfrentar dificuldades. E poderão ser grandes: o Deutsche Bank, por exemplo, que é um dos bancos mais alavancados, tem no balanço responsabilidades que equivalem a mais de 80% do PIB alemão.

Se acontecer então teremos um grande desafio institucional na Europa: não temos um Tesouro comum e o BCE não é tão flexível como a Fed. Como é que as coisas iriam funcionar?
Na verdade não sabemos. E este é um dos principais problemas na Europa. O enquadramento institucinal não está preparado para lidar com um desafio dessa dimensão.

Mas os problemas teriam de ser resolvidos a nível nacional? Há grandes bancos que têm ramificações em vários países. Qual seria a autoridade nacional nessas situações?
Em princípio os problemas teriam de ser resolvidos a nível nacional. Mas aí há um desafio adicional, como alocar as perdas e chegar a acordo sobre que bancos deveriam ser salvos e quanto é que cada país pagaria.

Em algum ponto o BCE pode ser a única instituição capaz de salvar um grande banco? Pode o BCE ser apanhado na mesma situação que a Fed no que diz respeito a perda e independência financeira?
Dada a complexidade do desafio, não podemos excluir a necessidade de intervenção do BCE. No entanto ninguém sabe muito bem como é que isso funcionaria na Europa.

— e.conomia.info

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