Paul De Grauwe (KU Leuven)
28 Julho 2008
Num artigo publicado recentemente e que a e.conomia.info destacou em Julho de 2008 o professor belga expõe as fragilidades dos actuais modelos usados pelos bancos centrais e outras organizações. Neles, os mercados funcionam de forma eficiente e somos todos superhomens percebendo todo o mundo a cada instante. Ora o mundo não é assim e De Grauwe explica porque é que os economistas terão de flexibilizar essas hipóteses.
“Os bancos centrais não devem apenas controlar a inflação”
Os modelos Dynamic Stochastic General Equilibrium (DSGE) são o último “grito” da tecnologia na macroeconomia e são usados pelas principais organizações com responsabilidade na política económica, desde o BCE, à Comissão Europeia. Como eles tentam perceber a realidade e, mais importante, é com eles que tomam as decisões. Por exemplo: subir juros em plena crise como forma de garantir a estabilidade de preços. O problema com estes modelos é que as razões da sua elegância são também as causas das suas limitações: assumem que os agentes são uma espécie de super-homens que percebem tudo (ver artigo de Paul De Grauwe que destacámos em Julho de 2008) e que os mercados são perfeitos. Hipóteses que impedem uma visão correcta da economia, defende o professor belga que não tem dúvida que a economia terá de passar a ser mais realista nas hipóteses que assume. Por enquanto são os modelos DSGE que reinam: uma “moda” que está para ficar nas próximas décadas, diz.
Qual lhe parece ser a hipótese mais “corrosiva” nos modelos DSGE, os quais servem de base a grande parte da modelização macroeconómica actual, nomeadamente nos bancos centrais como o BCE?
Por um lado, o facto de assumirem que os agentes percebem tudo. Por outro, a ausência de mercados financeiros. Esta combinação leva a uma interpretação enviesada de como as economias funcionam. Por exemplo, a actual crise financeira é assumida nestes modelos como um factor exógeno que caiu do céu, o que é uma má percepção face a algo que foi um mau funcionamento dos mercados com implicações evidentes nas variáveis macroeconómicas.
Do ponto de vista da política monetária, que limitações se colocam aos bancos centrais por usarem este tipo de modelos e hipóteses?
Nos modelos DSGE o paradigma é o de que o individuo percebe tudo e, logo, a criação de um ambiente com estabilidade de preços permite aos agentes fazer as melhores escolhas. Daí que os bancos centrais se centrem hoje tanto nessa estabilidade, a qual, segundo estes modelos – que assumem igualmente o funcionamento perfeito dos mercados – implica estabilidade para os mercados e para os ciclos económicos. A realidade, contudo, mostra que garantir apenas a estabilidade de preços não chega: nos últimos dez anos tivemo-la e não deixámos de ter diversas crises. O facto é que os indivíduos não são perfeitos, não percebem o mundo todo. Razões para que os bancos centrais tenham uma missão mais ampla do que a de controlar apenas a inflação.
Sendo evidentes as limitações cognitivas dos agentes económicos, o que é que justifica que a economia esteja tão atrasada, por exemplo, em importar conhecimentos da psicologia, resistindo a sofisticar os seus modelos?
Eu também fixo perplexo. Creio que por vezes, a ciência também é vítima da moda e do “comportamento de rebanho”. Por outro lado, as hipóteses de agentes racionais e mercados eficientes permitem criar modelos matemáticos bonitos e apelativos que atraem muita gente. Sem estas hipóteses é mais difícil uma modelização tão elegante. Um terceiro factor resulta do facto de já muita gente ter investido a estudar e a pensar este tipo de modelos. As resistências são particularmente fortes na macroeconomia. A microeconomia ou a teoria dos jogos, por exemplo, já começam a incorporar os efeitos das imperfeições tanto dos agentes, como dos mercados. Na macro ainda não há um consenso, mas creio que terá de vir a ser considerado que os agentes não percebem tudo, que erram e aprendem com os erros e que esse processo é lento. Admito que continuemos no caminho actual nos próximos 20 ou 30 anos.
No artigo que escreveu assume as limitações cognitivas dos agentes e define que decidem com base em regras de decisão simplificadas e por aproximação. Daí resultam ondas de pessimismo e optimismo endógenas à economia. Pode explicar melhor?
A hipótese central é a de que as pessoas não percebem exactamente como o mundo funciona, e logo o mais racional é decidirem com base em regras de previsão que funcionam por aproximação e que permitem aprendizagem. Este é um modelo, que não pretende ser realista, mas que mostra a importância de explorar novas dimensões na modelização económica. No artigo assumem-se dois grupos de indivíduos: uns optimistas e outros pessimistas. Cada um destes tipos faz previsões sobre o futuro. Depois os que tiverem o melhor registo de previsões face a resultados, atraem os que previram (e decidiram) de forma diferente. Um exemplo: se a economia estiver a desacelerar, então os “pessimistas” terão previsto melhor o futur e, por isso, a sua forma de prever começa a ser seguida por um número crescente de optimistas. Segue-se que o crescimento no número de pessimistas gera um efeito de expectativas que se realizam a elas próprias (self -fulfilling). Daqui podem resultar ondas de pessimismo e optimismo e até o andamento do ciclo económico.
Está portanto a dizer que faltam instrumentos para perceber e “atacar” os ciclos e as crises?
É claro que não se têm todos os instrumentos. Muitos bancos centrais (BC), por exemplo, só têm a taxa de juro como instrumento de política quando deveriam também ter ao seu dispor capacidade de supervisão que deviam utilizar de forma mais activa. A separação da supervisão da política monetária resulta do facto de no mundo em que trabalham se assumir que a estabilidade de preços garante a estabilidade em toda a economia. Ora, é evidente que a lógica de assumir que o mercado é eficiente e que os agentes percebem tudo é enganadora e que garantir a estabilidade de preços não chega. A actual crise dá bons argumentos para que o Banco Central tenha poderes e responsabilidades que vão além da estabilidade de preços.
NR: Paul De Grauwe é professor da Universidade Católica de Leuven e um dos mais prestigiados economistas europeus em política monetária. Conselheiro de Durão Barroso na Comissão Europeia, 12 anos deputado belga e várias artigos e livros publicados explicam por que é uma das vozes mais influentes nas críticas a excessos de rigidez nas regras da UEM europeia. É uma presença regular na secção de opinião do Financial Times.
— e.conomia.info
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