Lant Pritchett [Universidade de Harvard]
27 Abril 2008
Lant Pritchett explica os objectivos do “rendimento por natural”, uma medida de riqueza sugerida por si no estudo aqui destacado. O economista norte-americano defende o reforço da importância dada à mobilidade laboral como instrumento das políticas de desenvolvimento.
“Os países mais ricos não vêem a sua política de imigração como uma questão de desenvolvimento”
De que forma é que esta nova medida de “rendimento por natural” pode influenciar as políticas de desenvolvimento?
O principal impacto é fazer com que a mobilidade laboral possa ser vista como uma política de desenvolvimento, tanto do lado dos países de imigração como de emigração. Ou seja, actualmente, os países mais ricos não vêem o impacto das suas políticas de imigração e laborais como estando ligadas a questões de desenvolvimento. Mas, tendo uma medida que mostra que deixar as pessoas trabalharem em países ricos, mesmo que de forma temporária, aumenta directamente o nível de desenvolvimento (sem ter de invocar as remessas ou os efeitos de contágio no Mercado laboral do país de origem, por exmplo), pode fazer com que as pessoas fiquem mais sensíveis aos impactos positivos da mobilidade laboral.
Este seu trabalho relaciona-se de alguma forma com outras medidas de rendimento alternativas ao PIB que se focam no bem estar na população?
Na minha opinião, está fortemente relacionado. O Índice de Desenvolvimento Humano teve um enorme impacto ao destacar as dimensões de bem-estar que estão talvez subvalorizadas pelo PIB per capita (apesar de, na minha opinião, as fundações conceptuais deste índice, com indicadores e pesos arbitrários, serem muito fracas). Da mesma forma, medidas como o “PIB verde”, que ajustam o PIB das consequências ambientais, revelam outras areas em que o PIB per capita sozinho (porque não capta as externalidades) é insuficiente. Neste caso, estamos apenas a lembrar que o PIB per capita é baseado exclusivamente num território. Assim, por exemplo, se alguém passa de um salário acima da média num país pobre para um salário abaixo da média num país rico, o PIB per capita cai em ambos os locais – o que dá quase de certeza uma imagem errada do que efectivamente aconteceu em termos de bem-estar. O “rendimento por natural” daria a imagem correcta. Assim, especialmente quando a mobilidade não é permanente e as pessoas mantém a cidadania do seu país de origem, esta medida é um suplemento útil às tradicionais medidas baseadas no local.
Portugal, um país com uma longa história de emigração, surge no vosso cálculo com um PIB per capita superior ao “rendimento por natural”. Há alguma explicação para este facto?
Não examinei os números de Portugal em profundidade. No entanto, é preciso levar em conta que, embora muitos profissionais qualificados vão para o estrangeiro, podem faze-lo numa proporção mais baixa do que a dos trabalhadores menos qualificados. E se estes, forem para locais em que os salaries são mais elevados mas não tanto como o dos trabalhadores qualificados que ficam no país, então é fácil que se assista ao fenómeno de “selecção negativa” e que se tenha um “rendimento por natural” menor que o PIB per capita.
Lant Pritchett é um dos economistas que, com maior destaque, tem defendido o papel da mobilidade laboral como um dos meios mais eficazes de combate à pobreza no Mundo. O seu livro “Let Their People Come: Breaking the Gridlock on Global Labor Mobility” aborada este assunto. É doutorado no MIT, trabalha no Banco Mundial, colabora com o Center for Global Development e dá aulas na Kennedy School of Government da Universidade de Harvard.
— e.conomia.info
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