João César das Neves [UCP]
14 Abril 2008
O professor de Economia explica algumas das motivações e conclusões do paper “Ethical reasons for ethical behaviours” que destacámos na e.conomia.info e expõe motivações e desafios que se colocam à ética empresarial.
“Quando ser bom não dá lucro é que se vê quem é realmente bom”
Cada vez mais gestores optam por um discurso eticamente correcto. No entanto, a sociedade continua a desconfiar das verdadeiras razões que os motivam, acreditando muitas vezes que procuram fundamentalmente maximizar lucros. Esta desconfiança gera ineficiências. Por exemplo, as empresas gastam excessivos recursos a convencer uma sociedade céptica. Outra consequência: os empresários com objectivos éticos são desencorajados. O professor expõe os perigos desta abordagem e explica que a razão para criar uma “distinção teórica entre uma atitude «ética intrínseca» (onde a pessoa é ética por razões éticas) e «ética extrínseca» (onde se é ético por razões não éticas, por exemplo comerciais) é dotar a ciência de conceitos mais adequados para compreender a realidade”.
A ética de negócios é muitas vezes mais vista como uma forma de “marcar pontos” junto de uma sociedade que diz valorizar a ética, do que o resultado de gestores, economistas e agentes verdadeiramente éticos. No entanto, para o resultado final na sociedade (definido por decisões éticas por parte dos agentes) uma e outra são equivalentes, ou não?
De facto a maior parte das razões normalmente apresentadas para se ser ético têm a ver com razões não éticas. Mesmo grandes especialistas em ética empresarial recomendam o comportamento ético para ter bons lucros, boa carreira, sucesso comercial. Isso é verdade, e tem efeitos positivos. Mas será que só interessam os resultados e não interessam os propósitos e objectivos? Bem, se olharmos em termos exclusivamente económicos, interessam sobretudo os resultados. Mas se olharmos em termos éticos, temos de incluir mais elementos e, em particular, os objectivos. Se ser bom dá lucro, até os maus são bons. Isso é um resultado (económico e ético) positivo e deve ser louvado. Mas não convence ninguém da ética dessas pessoas. Quando ser bom não dá lucro é que se vê quem é realmente bom.
Defende que é esta diferença que faz a sociedade desconfiar do “discurso ético” de muitos gestores? Porque considera que esta desconfiança é má? Não pode ela ser apenas um incentivo para que estes continuem a tomar decisões “éticas”?
Quem é ético por razões interesseiras não é visto como muito ético. Isso explica o paradoxo, hoje corrente, de as empresas fazerem enormes esforços para serem e se mostrarem éticas mas, apesar disso, não conseguirem perder a má imagem que têm na sociedade. Toda a gente continua a acusar as empresas de serem exploradoras, gananciosas e corruptas, apesar de elas estarem sempre a procurar demonstrar o contrário. Este paradoxo é muito prejudicial, por razões económicas (as empresas fazem esforços e gastam recursos sem resultados) e por razões éticas (a sociedade é injusta condenando empresários que são éticos e as empresas são levadas à hipocrisia, fingindo o que não são). Pode acontecer, como diz, que esta situação empurre as empresas para mais comportamentos éticos. Mas a prazo fará com que elas desanimem e desistam. Ninguém se esforça por algo que não consegue.
Nos últimos anos assistimos a vários escândalos internacionais. Mais recentemente em Portugal sucederam-se vários casos. Concorda que se está a criar em Portugal uma sensação que há cada vez mais gestores pouco éticos? Acha que há uma cultura de ética em Portugal?
Os escândalos e a reacção a eles são uma das principais forças que levam as empresas a tomar cuidados éticos. Porque empresas fazem mal e são punidas, as outras tomam cuidado com esses temas. Não é possível dizer se hoje as pessoas são mais ou menos éticas do que antes. O que se pode dizer é que hoje têm mais atenção a certos temas éticos (em particular as questões produtivas, ambientais, comerciais, etc.) e dão menos atenção a outros temas (sexo, vestuário, respeito a superiores, etc.). Assim sendo, no campo específico da ética empresarial, vivemos um período de grande atenção e interesse. Também por isso há aí mais escândalos, porque é nos temas da moda que há mais juízos e críticas. A cultura é mais exigente e, por isso mesmo, sente mais as violações éticas.
Em que medida os conceitos de éticas intrínseca e extrínseca podem ajudar a fomentar os comportamentos éticos?
O que procurei fazer ao introduzir essa distinção teórica entre uma atitude «ética intrínseca» (onde a pessoa é ética por razões éticas) e «ética extrínseca» (onde se é ético por razões não éticas, por exemplo comerciais) é dotar a ciência de conceitos mais adequados para compreender a realidade. Sem fazer essa distinção são consideradas equivalentes atitudes realmente muitos diferentes. A vantagem desta distinção é também que, em analogia com o que o psicólogo Gordon Allport fez no estudo a religião, é possível medir, através de inquéritos e de escalas, as duas atitudes e assim incluí-las em estudos empíricos.
NR: João César das Neves é professor na Faculdade de Ciências Económicas e Empresariais (FCEE) da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa. Lecciona macroeconomia e ética em diversos cursos e já publicou em revistas como o “ The Journal of the European Economic Association”, o “Journal of Monetary Economics” e a “History of Political Economy”. César das Neves é tido um dos economistas portugueses que mais de perto acompanha a conjuntura e a política económica nacional. Nos anos 90 foi assessor de Cavaco Silva quando este foi primeiro-ministro. Hoje preside ao Conselho Científico da FCEE.
— e.conomia.info
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