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Miguel St. Aubyn [ISEG] e António Afonso [ISEG e BCE]
9 Março 2008

Miguel St. Aubyn [ISEG] e António Afonso [ISEG e BCE]

Os dois autores do artigo explicam as conclusões que se podem retirar relativamente ao efeito do investimento público na economia e no investimento privado e qual o retorno que é conseguido.


“Agora já não é evidente que seja preciso mais investimento público para potenciar mais investimento privado”

Pelas conclusões que são retiradas relativamente a Portugal, é correcto concluir-se que a recente redução do investimento público em Portugal tem estado a contribuir para o desempenho menos positivo do investimento privado durante os últimos anos?
De acordo com os nossos resultados, Portugal é efectivamente um dos países onde no passado (1960-2005) o investimento público tem exercido um efeito de arrastamento (“crowding-in”) sobre o investimento privado. Assim sendo, desse ponto de vista, talvez se possa pensar que menos investimento público poderá ser menos potenciador de investimento privado. Todavia, e dado que, como referimos adiante, a maior parte das infraestruturas essenciais já estão disponiveis em Portugal, é menos evidente que seja absolutamente necessário, no actual fase de desenvolvimento da economia nacional, mais investimento público para potenciar maiores níveis de investimento privado. Com efeito, a iniciativa privada tende a ser cada vez mais autónoma e eficaz a detectar as oportunidades de investimento, sem precisar do impulso e do Estado. Por outro lado, quando na sua questão refere o aspecto do desempenho do investimento privado, tal prende-se já com a rentabilidade dos projectos de investimento levados a cabo pelo sector privado. Novamente recorrendo aos nossos resultados, é interessante observar que calculámos taxas de rentabilidade agregadas positivas para o investimento privado em Portugal durante o período em análise.

A necessidade de um elevado nível de investimento público em Portugal tem sido justificada com o facto do país estar bastante atrasado em relação aos países mais avançados no que diz respeito às infra-estruturas. Este facto torna-se, de algum modo, evidente quando é analisado o efeito do investimento público na economia?
Como referimos também na resposta seguinte, nota-se com efeito que quando o conjunto chave de infra-estruturas foi construído nos anos 70 ou 80 (essencialmente via despesa pública), como é o caso de países com maior grau de desenvolvimento do que Portugal, a partir de certa altura a capacidade de investimento público adicional potenciar o crescimento económico tende a ser menos forte. Por exemplo, é razoável dizer que actualmente a construção de uma auto-estrada ou de uma ligação rápida de comboio entre Praga e Varsóvia podem potenciar, quer o investimento privado, quer o crescimento económico, dada a existência de uma rede adicional de comunicação que os agentes económicos privados podem usar. Todavia, o interesse económico quanto à construção de uma auto-estrada adicional entre Bruxelas e Amesterdão ou Frankfurt será provavelmente muito menos evidente.

Na sua opinião, qual o tipo de investimento que produziu e poderá vir a produzir efeitos mais positivos no desempenho da economia portuguesa e na dinamização do investimento privado?
Esse aspecto não é explicitamente analisado no nosso trabalho, já que usamos medidas agregadas de investimento público e de investimento privado. Todavia, penso que podemos dizer que o tipo de investimento público mais potenciador, quer do investimento privado, quer da actividade económica, é algo que varia de país para país em cada fase do respectivo desenvolvimento económico. Parece razoável esperar que em países que enfrentam um processo de “catching up”, o investimento em infra-estruturas seja mais importante do que, por exemplo, num país onde essas infra-estruturas já existem em quantidade e qualidade. Ou seja, neste último caso, serão as depesas de manutenção e de reposição de infra-estruturas que poderão ser mais relevantes e produtivas. Adicionalmente, é de de notar que o investimento privado tem uma motivação claramente económica – os empresários só investem quando antecipam uma rentabilidade positiva. No caso do investimento público, não se espera de diversos investimentos necessariamente uma rentabilidade directamente medida em “aumentos do PIB”. Este é o caso, por exemplo, das construções hospitalares, ou de equipamentos culturais.
Em relação ao caso português, vale a pena citar a conclusão de um outro estudo, da autoria de Miguel St. Aubyn, e publicado pelo DPP: “Diferentes tipos de investimento público têm diferentes impactos sobre o investimento privado e sobre a produção. A consideração de diversos tipos de desagregação do investimento público confirma que o investimento em sectores das infra-estruturas como o dos transportes terrestres tem aparentemente maior impacto na actividade económica. Considerando apenas este sector, mesmo a taxa de rendibilidade do investimento total surge como positiva (cerca de 1,6 por cento). De um modo geral, também os investimentos em infra-estruturas de água, gás e electricidade, ou em comunicações, evidenciam taxas de rendibilidade do investimento público elevadas, por comparação com os investimentos de serviços não mercantis que se incluem no sector G do modelo Herpor (Educação, Investigação, Saúde e Acção Social e Administração Pública).”

Miguel St. Aubyn é professor associado do ISEG. tem trabalhos publicados na Economic Modelling, Economics of Education Review, Journal of Applied Economics e Journal of Policy Modeling.
António Afonso é professor assistente do ISEG e economista principal do Banco Central Europeu. Os seus principais interesses de investigação estão na política orçamental, macroeconomia e economia financeira. Publicou nas revistas Economic Modelling, FinanzArchive, Journal of Applied Economics, Public Choice, Applied Economics Letters, Journal of International Financial Markets, Institutions & Money e Regional Studies.

— e.conomia.info

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