Armando Pires [NHH]
2 Março 2008
Armando Pires, investigador e professor na Norwegian School of Economics and Business Administration (NHH), em Bergen, explica em entrevista os resultados do artigo que destacamos esta semana sobre riqueza e potencial económico de vinte regiões ibéricas. Em Portugal, o problema orçamental é só a ponta do iceberg, defende.
“O défice orçamental é apenas a ponta do iceberg dos problemas portugueses”
Armando Pires explica em entrevista os principais resultados do artigo em que analisa o potencial económico e o nível de riqueza de vinte regiões ibéricas. Entre as principais conclusões está o atraso português: Lisboa e Vale do Tejo que é a melhor região portuguesa pontua muito próximo das piores regiões espanholas. A explicar a má posição de Lisboa está essencialmente o mau desempenho tecnológico. O autor considera que as contas públicas são apenas a ponta de um iceberg dos problemas estruturais que Portugal enfrenta. Bem mais importantes são “problemas como a corrupção, favoritismo e nepotismo” que “têm destruído o capital social de Portugal”, diz Armando Pires, que avisa: “Existem ineficiências a nível da confiança dos agentes uns nos outros e também em relação ao Estado. Sem confiança uma economia não pode funcionar porque os fundamentos de mercado ficam minados”. O economista defende ainda haver espaço para que Lisboa se possa vir a afirmar com um centro de projecção ibérica a Oeste da península.
O que explica que Lisboa esteja tão afastada das regiões espanholas em termos de potencial de crescimento e de bem-estar? Quais as variáveis determinantes para este atraso
O estudo realizado é baseado numa metodologia chamada potencial de mercado. Esta metodologia permite identificar centros e periferias económicas numa dada unidade espacial. A unidade espacial considerada no estudo é a Península Ibérica. Na Península Ibérica, Lisboa aparece como periférica em relação às regiões espanholas. Obviamente o mesmo acontece com as restantes regiões portuguesas uma vez que Lisboa é o centro económico na unidade espacial de Portugal. Por outro lado, a nível Ibérico três centros sobressaem: Madrid, Barcelona e País Basco e um novo centro que parece emergir em Valência.
O potencial de mercado de uma região depende no potencial de oferta (principalmente indústria e serviços), potencial de procura (estado, consumidores finais e industriais) e diferenças tecnológicas entre regiões. Lisboa aparece como periferia principalmente devido ao seu mau desempenho em termos tecnológicos.
É surpreendente o padrão centro-periferia encontrado para a Península Ibérica?
Não acho que seja surpreendente. É algo que se tem falado bastante nos meios de comunicação social nos últimos anos. No entanto, no meu conhecimento, é a primeira vez que se faz um estudo cuidado deste assunto.
A análise feita é estática. É possível saber como tem evoluído?
Sim isso é possível, bastaria para isso adicionar mais anos ao estudo e analisar a evolução temporal. Na realidade, o conceito de potencial de mercado é dinâmico pois este depende de factores que podem variar no tempo (como oferta, procura e nível tecnológico regional). No entanto, paradoxalmente ou talvez não, os padrões geográficos observados tendem a ser rígidos no tempo. A isto chama-se “path-dependence”.
Tem-se registado uma maior integração na Península? Quais os impactos para Portugal?
O path-dependence é quase uma condenação ao falhanço das regiões mais atrasadas e periféricas. No entanto estudos realizados mostram que apesar da rigidez nos padrões de localização, estes podem ser quebrados no seguimento de mudanças profundas na estrutura económica. A integração pode ser um desses casos. Cabe às regiões com mais atraso saberem tirar partido disso. De facto os resultados obtidos em simulações de um mercado Ibérico totalmente integrado mostram que são as regiões mais periféricas que mais tem a ganhar com esta integração. Isto são boas notícias para as regiões portuguesas. Mas para isso é preciso saber aproveitar as oportunidades que se abrem com uma maior integração do mercado ibérico.
Que opções de política podem ser aconselháveis para contrariar este diagnóstico e porque é que Lisboa e Vale do Tejo tem potencial para emergir como com um novo centro económico na península?
A primeira lição de política é ter informação sobre o real estado da economia portuguesa. Não ter medo de identificar os problemas. Só sabendo a posição da economia portuguesa no mundo, e neste caso na Península Ibérica, se pode elaborar as políticas correctas para fazer face aos problemas identificados. Infelizmente, não acho que em Portugal haja uma cultura de estudo dos problemas porque se tem medo das consequências políticas da descoberta dos mesmos. As conclusões deste estudo são que Lisboa não está relativamente mal em termos de potencial de procura. Os problemas estão do lado da tecnologia e do potencial de oferta. Um estudo deste tipo não identifica quais as políticas mais acertadas para fazer face a estes problemas. Esse é o segundo passo depois de identificar os problemas: discussão e avaliação das melhores opções de política. Esta discussão deve incluir o maior número de actores e deve ser transparente. Eu diria que Portugal tem problemas estruturais, e não falo do deficit orçamental público. Esse é só a ponta do iceberg. Problemas como a corrupção, favoritismo, nepotismo têm destruído o capital social de Portugal. Existem ineficiências a nível da confiança dos agentes uns nos outros e também em relação ao Estado. Sem confiança uma economia não pode funcionar porque os fundamentos de mercado ficam minados. Finalmente Lisboa pode emergir como um novo centro a nível Ibérico, por várias razões. A literatura económica que lida com questões espaciais tem uma hipótese relacionada com a equidistância entre os centros económicos: dois centros não surgem um ao lado do outro, mas relativamente afastados. Por exemplo na Península Ibérica temos um centro no Norte (País Basco), um no Centro (Madrid), um no Este (Barcelona), e um novo centro a emergir no Sul (Valência). No entanto não existe nenhum centro no Oeste da Península Ibérica. Deste modo, e de acordo com a hipótese de equidistância entre centros, Lisboa tem todas as condições para emergir como este novo centro no Oeste da Península Ibérica.
NR: Armando Pires licenciou-se no ISEG e doutorou-se pelo ISEG e pela Universidade de Dublin. Hoje é investigador e professor associado no departamento de economia da Norwegian School of Economics and Business Administration. Tem-se dedicado ao estudo de temas na economia internacional e na economia espacial e tem explorado a relação da investigação e da tecnologia com o crescimento e o desenvolvimento. Nesta áreas tem trabalhos publicados no CEPR. O artigo que hoje destacamos surgiu pela primeira vez no Portuguese Economic Journal.
— e.conomia.info
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