Bent E. Sorensen [Univ. Houston]
14 Janeiro 2008
Bent E. Sorensen é co-autor de um artigo que a e.conomia.info destacou a semana passada onde se comparam os fluxos entre estados dos EUA e os fluxos entre os países da UE. Portugal serviu de exemplo para demonstrar que, na Europa, os fluxos de capital ainda ocorrem dos países ricos para os países pobres, enquanto tal deixou de existir nos EUA a partir dos anos 70. A e.conomia.info foi colocar algumas questões ao professor da Universidade de Houston.
No período que analisou foi criada uma União Monetária com efeitos muito fortes em economias como Portugal ou a Grécia, que tinham antes da adesão taxas de de juro muito elevadas comparadas como as dos países “core”. A queda nos juros influenciou a taxa de poupança e logo o défice externo. Seriam os resultados dos últimos 15 anos diferentes caso não tivesse sido criada a UEM?
Muito provavelmente não. As altas taxas de juro indicam que a produtividade marginal é relativamente elevada e, se a tendência para poupar não é elevada, então uma taxa de de juro elevada será precisa para igualizar a poupança ao investimento. Esta é exactamente a situação onde a remoção de barreiras aos fluxos de capital levará a entrada de capital na economia. Depois da abertura dos mercados as taxas de juro irão igualizar-se dentro da UE. Os fluxos de capital vão continuar se a produtividade marginal se mantiver elevada, mas provavelmente a produtividade marginal irá diminuir à medida que mais e mais projectos produtivos são efectuados.
Tem alguma ideia de quanto tempo é que poderá levar até que os fluxos de capital na UE invertam a sua direcção, como aconteceu nos EUA nos anos 70?
É muito difícil saber. Uma parte significativa dos fluxos parece-me que tiveram a ver com o investimento residencial e os mercados residenciais irão saturar-se ao fim de algum tempo. Um palpite poderá rondar os 20 anos.
À luz da sua investigação, como vê os recentes desenvolvimentos nos fluxos de capital a nível mundial. As economias emergentes estão a exportar mais e mais capital para os ricos. Como é que esta tendência se relaciona com os seus resultados? Acha que se irá manter?
Tenho pouco a dizer sobre fluxos globais. Alguns economistas acreditam que os mercados de crédito em países como a China são demasiado rudimentares para que os aforradores chineses consigam canalizar as suas poupanças para os potenciais devedores e, por isso, essas poupanças acabam por ser canalizadas para os países desenvolvidos. Não fiz investigação nesta área, mas esta história parece plausível, apesar de não me parecer relevante para os fluxos de capital dentro da UE.
Quais as principais diferenças entre os países europeus e as regiões dos EUA em termos de barreiras à circulação de capital e de instituições? Como é que estão a evoluir?
A nossa investigação sugere que as regiões europeias estão menos integradas que as norte-americanas e parece que tal não é tanto o resultado de questões institucionais formais ou legais, mas antes de questões “culturais”. Os indivíduos têm de procurar investimentos diversificados geograficamente e as empresas têm de estar “disponíveis” a espalhar a sua produção geograficamente – (não temos evidencia empírica sobre se a menor “disponibilidade” reflecte uma tendência psicológica ou se é mesmo menos rentável espalhar a produção na Europa do que é fazê-lo nos EUA. Talvez pelas barreiras linguísticas que não mudam rapidamente? Ou poderá ser por outros factores como os custos de transporte que estão a aproximar-se rapidamente dos níveis dos EUA). Há outra investigação empírica recente de Luigi Guiso e co-autores que indica que as variáveis culturais contam. Parece-me que isto vai mudar rapidamente. Nós testemunhamos que a disponibilidade para deter activos internacionais mudou muito rapidamente nos últimos 10 anos, e parece-me que assim irá continuar a acontecer (talvez com alguma longa relutância de inimigos históricos em investir entre eles).
Bent E. Sorensen é professor na Universidade de Houston, Texas, nos EUA. A sua nacionalidade é dinamarquesa, país onde obteve a formação base, mas após a conclusão do doutoramento (1990) em Copenhaga, emigrou para os EUA. Leccionou nas universidades de Brown, Copenhaga e Binghamton. Entre 1999 e 2001 foi economista sénior na reserva federal de Kansas. Tem artigos publicados em várias revistas em áreas como economia financeira e macroeconomia.
— e.conomia.info
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