E se deixarmos de acreditar que agentes são superhomens?
13 Julho 2008
[Paper] “DSGE-modelling when agents are imperfectly informed”
[Autores] Paul De Grauwe
[Publicação] BCE, Maio 2008
[Classificação JEL] E10, E32, D83
[Palavras Chave] DSGE-model, imperfect information, heuristics, animal spirits
(Newsletter nº042 | 14 JUL | 2008)
De Grauwe propõe que se explorem as consequências de assumir que os agentes antecipam o futuro com base em regras de previsão simples (e grosseiras). Esta hipótese contrasta com a mais comum na actual teoria económica onde os agentes, completamente racionais, são quase “super-homens” cujas previsões e decisões replicam as dos complexos modelos usados pelos economistas. Ora o belga defende que os seres humanos estão longe de ser estes super-homens e que as deficiências cognitivas são uma evidência. Daí que o razoável – e racional – é que, dada a complexidade do mundo, os agentes decidam e antecipem o futuro com base em regras simples de aproximação à realidade. Os resultados obtidos com um modelo deste tipo são bem diferentes dos actuais gerando, por exemplo, ondas de optimismo e pessimismo na economia.
[Artigo] Um dos instrumentos mais comuns nos bancos centrais (e não só) são os modelos de equilíbrio geral dinâmico estocástico (dynamic stochastic general equilibrium models – DSGE). Com eles os banqueiros modelizam a economia e estudam as melhores estratégias para a política monetária. Neles os agentes são racionais, conhecem toda a informação e processam-na de forma óptima. Desta hipótese decorre também na maioria das vezes que os agentes são assumidos como exactamente iguais, isto é, pensam, percebem e valorizam a realidade da mesma forma. Como é fácil perceber estas são hipóteses simplificadoras. De Grauwe reconhece o potencial cientifico desta abordagem que permite um enquadramento coerente e auto explicativo da realidade, mas defende que vai longe demais nas simplificações quanto às capacidades dos agentes. O que aconteceria se se adoptasse uma versão onde os agentes são mais limitados? Os efeitos são grandes…
[Abordagem] Cria dois modelos: um de expectativas perfeitamente racionais (DSGE standard) e outro a que chama “heurístico” onde as previsões dos agentes para inflação e produto resultam de regras simples de aproximação. Estas regras são usadas pelos agentes ao longo do tempo que vão escolhendo as que têm maior sucesso eliminado as outras (no fundo um processo de aprendizagem). Calibra os modelos e estuda as suas respostas a vários choques.
[Conclusões] Adoptando a possibilidade de regras simples de previsão o modelo gera por si ondas de pessimismo e optimismo, algo que o autor aproxima aos “animal spirits” de Keynes. Além disso, a inércia no produto e nos preços é também gerada naturalmente pelo modelo e não imposta como acontece com os DSGE standard. Outra característica importante é que um mesmo choque de política monetária pode ter efeitos diferentes dependendo do estado da economia, por exemplo, do momento mais ou menos optimista. O economista avisa que estes são resultados preliminares, mas cumpre o objectivo de mostrar as potenciais consequências de tornar os actuais modelos económicos mais razoáveis.
[Comentário] Uma das maiores revoluções na teoria macroeconómica das últimas décadas foi o conceito de expectativas racionais introduzido nos anos 70, o qual define que as expectativas dos agentes têm de ser consistentes com a estrutura da economia e do modelo utilizado para a representar. Na década seguinte a teoria dos ciclos económicos reais veio forçar as expectativas dos agentes a terem um fundamento microeconómico: estes passaram a maximizar de forma dinâmica a sua utilidade. Foi só nos anos 90 que se afirmaram as teorias dos chamados novos keynesianos que vieram forçar os modelos anteriores a admitir inércias na adaptação da economia (introduzindo também alguma heterogeneidade entre agentes). Depois de três décadas de estudo estes modelos chegaram às salas de decisão dos bancos centrais mas, ainda assim, admitindo como hipótese que os seres humanos são muito mais sofisticados do que outras ciências – como a psicologia – parecem aceitar. Esta e as próximas décadas serão gastas a melhor perceber afinal como é que o ser humano prevê o futuro e toma decisões.
— e.conomia.info
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