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Indigno-me, mas não sou parvo
11 Maio 2008

[Paper] “Cooling-off in Negotiations – Does it Work?”

[Autores] Jörg Oechssler, Andreas Roider and Patrick W. Schmitz

[Publicação] CEPR, Abril 2008

[Classificação JEL] C78, C99, D8

[Palavras Chave] behavioural biases, cognitive abilities, cooling-off, emotions,internet experiment, negotiations and ultimatum game

(Newsletter nº033 | 12 MAI | 2008)

As pessoas indignam-se face a uma proposta injusta de tal forma que são mesmo capazes de a recusar, apesar de tal significar que vão perder dinheiro. A indignação é no entanto proporcional ao que estiver em jogo: ou seja, quanto maior for a parada, menor a indignação (e menor a taxa de recusas). Além disso, uma noite de sono devolve alguma racionalidade aos agentes, especialmente nos casos em que a parada é alta. É que mais vale receber pouco do que não receber nada, explicam alguns dos participantes nesta experiência.

[Artigo] São os agentes racionais nas suas decisões? Existe uma predisposição para decisões que promovam uma repartição justa dos recursos? Se assim for, existe um sentido de indignação face à injustiça que justifique respostas onde todos perdem. Que papel têm as emoções nas decisões dos agentes económicos?

[Abordagem] Foi feito um teste com mais de 1200 pessoas divididas em dois grupos. Um recebe propostas de divisão de dinheiro numa de duas repartições: “8:2” ou “5:5”. O outro recebe as duas possibilidade de participação, mas em bilhetes de lotaria: o prémio máximo é 500 euros, mas cada bilhete tem um valor esperado de um euro. As propostas foram enviadas por e-mail, são reais (dão efectivamente lugar a pagamentos), e os respondentes dão uma primeira resposta sem saber que lhes vai ser dado um período de reflexão. A recusa a uma proposta significa que nem o proponente nem o respondente recebem algo. Após as respostas, os respondentes são informados que daí a 24 horas lhes será dada a hipótese de mudarem de posição. Os resultados são depois analisados em conjunto com inquéritos onde se cruzam, nomeadamente, as decisões com as capacidades cognitivas dos indivíduos.

[Conclusões] Nas propostas (8:2) em euros a taxa de recusa para as propostas em dinheiro foi de 43%, bem acima dos 28% de rejeições quando em causa estava uma lotaria (valor esperado de cada bilhete de lotaria é de um euro). Igualmente interessante foi o efeito de uma noite de sono sobre a decisão: em ambos os casos a taxa de rejeição baixou (mais vale receber pouco do que não receber nada), mas no caso da proposta em dinheiro a redução é pouco pronunciada (de 43% para 39%). Já no caso da experiencia com pagamento em bilhetes de lotaria a diminuição de recusas foi de 25%, de 28% para 21%. Os níveis de irritação foram superiores entre os que receberam a proposta de divisão 8:2, e semelhante entre a experiência com dinheiro e com bilhetes de lotaria. As pessoas com menores capacidades cognitivas e mais impulsivas revelam maior probabilidade de aceitar a proposta com a lotaria do que com o dinheiro.

[Comentário] Grande parte da teoria económica baseia-se na ideia de que as decisões, e os agentes, são racionais. Essa hipótese é obviamente uma simplificação grosseira da realidade. O aperfeiçoamento da ciência económica passará por melhorar as hipóteses assumidas para os os efectivos factores que conduzem a uma decisão. A economia experimental dá um contributo valioso.

— e.conomia.info

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  1. Talvez seja pouco claro para quem está fora da área perceber a distinção entre pagamento normal e pagamento em bilhetes de lotaria.
    A teoria económica prevê que a utilidade marginal diminua com aumentos de pagamento, mas que seja constante com aumentos de probabilidade de ganhar um pagamento.

    Ou seja é um truque (consensual entre os experimental economists) para evitar problemas como aversão ao risco e “saturação” nos pagamentos.

    Nesta experiência isso fica claro (se é que percebi o que estava em causa) ao haver menor rejeição – atitude mais “racional” – em quem joga com bilhetes de lotaria.

    miguel carvalho · 13 Maio 2008, 23:52 · #

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